quinta-feira, 20 de abril de 2017

domingo, 26 de março de 2017

para onde vão as palavras quando não precisamos delas?

Em pequena, tentava adivinhar o que acontecia às palavras dos livros quando os fechava.
E pensava que provavelmente fugiam, desapareciam e as páginas ficavam brancas, imaculadas, sem vestígios das palavras que ainda há pouco lia.
E desapareciam simplesmente porque não as estava a ver, porque, acabada a leitura, não fazia sentido continuarem ali.
Com o livro fechado,  as palavras não precisavam de ficar ali presas e podiam seguir o seu caminho.
As palavras não eram, então, simples manchas de tinta a transmitir-me ideias, histórias, fantasias.
As palavras tinham vida própria, ganhavam fôlego e iam, numa azáfama, aparecer num outro livro de uma outra criança que delas necessitava.
Lá no fundo, talvez já soubesse que as palavras nunca serão totalmente nossas, mesmo quando as tentamos prender com a voz, com a leitura, com a escrita. 
Criámos as palavras e com elas lemos o mundo, mas elas são autónomas, ganham asas de cada vez que as deixamos [por vezes, até antes de as deixarmos ir] , ficando por aí a pairar à espera que um de nós, mais uma vez, as tente agarrar, num interminável jogo da apanhada.



 
Imagem daqui.